quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A Bienal do Vazio

Quem foi o homem de ciência a dizer que a natureza não comporta o vazio? Não lembro o nome de imediato, mas apena da verdade absoluta dessa afirmação. A natureza não suporta o vazio! Na natureza não existem espaços vazios, tudo está preenchido, embora a nossa percepção dessa verdade seja relativa e falha. E o que é a natureza? Tudo! Quando os filósofos separam cultura x natureza, não o fazem de fato, porque cultura é só a nossa interpretação ( muitas vezes equivocada....) emprestada à natureza e suas leis. Um edifício é natureza tanto quanto uma árvore ou um inseto, embora nele tenhamos rearranjado as leis naturais e os elementos intencionalmente. E o que dizer da Alma? Natureza também, e nela, principalmente, o vazio é insuportável.
Quando os curadores da ultima bienal de artes plásticas em São Paulo deixaram o segundo piso vazio, como um "protesto" à falta de recursos, demonstraram claramente que não entendem de natureza, nem de alma, e talvez nem de artes. Afinal, o que é a bienal de artes paulista senão uma mostra do que vai rolando nas cabeças que pensam e criam plasticamente e manifestam suas criações? Não são isso todas as bienais e salões, e exposições de artes plásticas? Uma manifestação do ser que pensa e cria, da Alma, enfim?
Pois então, o vazio implodiu, o segundo piso ruiu, e justamente por causa de alguém que não faz a mínima idéia do que seja Arte.
Para quem acompanhou os fatos: ninguém protesta através do vazio, o vazio em si mesmo é a falta absoluta, não é nem mesmo sua negação. Um protesto é uma coisa cheia, se me permitem uma "imagem" para ele. O vazio é incapaz seja lá do que for. E quando os curadores deixaram o segundo piso vazio, a natureza (...das coisas!.....com certeza...) protestou: uma pichadora de segunda classe se apropriou do espaço e o preencheu. Está presa há 4o dias.
O equívoco em toda essa cena circense, é grande e complexo.
Venhamos e convenhamos, a bienal paulista já andava vazia há muito tempo: de significado, de expressividade no cenário artístico, de qualidade nas obras expostas, de propostas plásticas e de tantas outras qualidades que lhe seriam próprias e necessárias para ser digna de si mesma. Por outro lado, o cenário atual em artes plásticas - no mundo! - é uma verdadeira falácia de linguagens fragmentadas, uma avalancNegritohe absurdamente grande - orquestrada pela mídia ou por aqueles que detêm os meios de comunicação - no sentido de autenticar sentidos onde não existe sentido algum. A crise nas artes contemporãneas é antiga, mas o equívoco quanto ao que é arte, não parou lá atrás. Está mais volumoso.
O "protesto" da mocinha ao pichar as paredes do pavilhão, foi o gesto de alguém que não encontrou em si mesma a criatividade necessária para criar algo que se preste ao título de arte e - por não saber criar - destrói, inutiliza.
Esse é também o significado do gesto dos pichadores de rua que "protestam" (...?) contra os grafiteiros, acusando-os de se renderem à arte burguesa das galerias, destruindo ou inutilizando os grafites das ruas de São Paulo. E por aí vai o equívoco...
Aquela garota - detida há 40 dias - apenas provou que onde há vazio, o desastre acontece como uma forma de preenchê-lo. E ainda, mostrou toda sua capacidade autoritária (uma forma de "preenchimento" substituto à nulidade da capacidade de ser) quando, ao ser detida, suas últimas palavras foram "Sou uma pichadora! Viva a pichação!".
Se tudo fosse válido apenas por ser afirmado com tal leviandade, torçamos, então, para que esta infeliz não encontre inesperadamente alguém em sua frente, que lhe grite na cara "Sou um assassino! Viva o assassinato!!!"